No menu items!
11.8 C
Vila Nova de Gaia
Sábado - 2 Março 2024

Um amor que não se explica e um povo que não se “entende”

Destaques

EXCLUSIVO

Juraci Capataz é uma Açoriana, que passou mais de vinte anos com o seu coração dividido entre os Estados Unidos e o Pico nos Açores.
Nasceu no Pico, mas foi com nove anos para Massachusetts. Ainda muito novinha vinha todos os anos para os Açores. Logo que terminavam as aulas vinha de imediato para o Pico e lá permanecia até ao último dia das aulas começarem. Já feita mulher, as viagens adensaram cada vez mais, vinha nas férias do Natal, Páscoa, Carnaval e nas Férias de Verão. Era um amor que não se consegue descrever. Até que um dia esse sonho se desvaneceu um pouco, quando entrou no mundo do trabalho e se viu confrontada com o fator da “dança das cadeiras”.

Emigrou da Ilha do Pico para o Estado de Massachusetts em 1979, era uma situação temporária, para que o meu irmão fizesse o curso universitário. E regressar para o Pico, entretanto “fomos ficando por cá. O meu pai foi trabalhar para o Consulado de Portugal, e para o Banco Comercial dos Açores, ao mesmo tempo, sempre me senti dividida, porque não tínhamos necessidade alguma de emigrar.”

Sentiu alguma dificuldade em viver nos Estados Unidos. Mas com o tempo a passar, ia-se sentido cada vez mais dividida, vim para cá com nove anos, mas sempre muito dividida, e assim que as aulas terminavam eu ia diretamente para o Pico e lá permanecia até ao último dia antes de começarem as aulas nos Estados Unidos.
Manteve sempre ligação aos meus amigos do Pico da primária, e sempre acompanhando o seu percurso académico com os amigos do Pico.
As idas ao Pico começaram a aumentar, ia nas férias do Natal, da Páscoa, do Carnaval, mas ficando mas dividida, sentia-se mais em casa no Pico do que nos Estados Unidos, “e isto nos meus vinte e pouco anos.” Nunca conseguiu cortar o cordão umbilical do Pico. Frequentou Técnicas e Gestão de Turismo, com a intenção de voltar ao Pico. Em 1994 regressa aos Açores, “eu e os meus país, entretanto o meu pai reforma-se.”
“Aqui está uma boa oportunidade de por em prática os meus conhecimentos, vou pô-los em prática, nos Açores.”

Os Açores estão hoje o que eu sonhava em 1994, a nível de turismo. Como é que uma emigrante vai para o Pico com tantas ideias que ainda não estão na mente das pessoas que lá viviam.

Nos Estados Unidos há uma energia para querer trabalhar”

Nos Estados Unidos há uma energia para querer trabalhar, querer desenvolver, “não para amanhã, mas já, devia ter sido feito ontem. “Uma energia muito diferente.”

Enquanto que nos Açores continuava tudo muito burocrático, muito apegados aos fundos comunitários, às eleições, e que partido está no poder.

“Mesmo assim decidi ficar no Pico. Sabia que não ia trabalhar no Turismo, mas mesmo assim, decidi ficar e fui dar aulas e ficar lá, e fui dar aulas de Inglês na Ilha Graciosa., e nessa altura em 1996, houve eleições e o governo mudou, saiu o PSD do poder e ganhou o PS. Quando Carlos César entra ao poder.”

Muito novinha, vinda dos Estados Unidos, “não tinha a mínima noção do poder que um partido político tinha numa terra”.

“Fiquei pasmada quando viu as pessoas muito felizes porque o Diretor do Centro de Saúde vai mudar. Ao que repliquei: mas vai mudar porquê? E responderam-lhe: É porque o partido político que mudou. “Fiquei pasmada! Como é que um Diretor de um Centro de Saúde é um cargo político! Fiquei muito confusa como é que as coisas funcionavam assim.”

Conclusão fiquei lá durante um ano a dar aulas na Graciosa fui trabalhar por contrato no Turismo da Terceira, houve uma vaga para o Museu no Pico, também lá estive a trabalhar com contrato, mas não fiquei. “Pedi recursos, comecei a ter a noção que numa terra tão pequena as pessoas, não todas, as pessoas estavam lá a trabalhar não pelas qualificações, era por “conhecimentos”. Foi nesse ponto que comecei a criar uma revolta contra o sistema que havia.

O fator “conhecimento” em Portugal

“Eu cheia de pujança e cheia de vontade de trabalhar, e não conseguia ficar colocada porque havia o amigo de um amigo que ficou.”

Eu tinha trabalhado no museu do Pico com contrato como guia, e houve uma vaga para o quadro e eu não fiquei colocada. Pedi as atas, mas nem sequer havia atas. Tive que fazer recursos, e outras coisas, e fiquei muito revoltada, e pensei porque é que eu estou aqui? Porquê? Revoltada. A lutar contra um sistema que nunca vai ser alterado.

Regressei para os Estados Unidos, quando cheguei havia uma vaga para a Diocese de Fall River, para coordenadora de ensino de Inglês, para não falantes de Inglês. Concorri à vaga, fiquei colocada, não conhecia ninguém, nem ninguém me conhecia. Consegui o emprego pelo meu trabalho, pelo meu mérito, pelo meu empenho. E fiquei na Diocese de Fall Rivel durante 10 anos. Na Diocese ensinei e coordenei um programa que era adultos que não falavam Inglês, para que eles conhecessem a língua, a cultura, para melhorar a sua vida profissional e não terem empregos e trabalhos, que eram supostamente para os emigrantes.

Ao mesmo tempo preparava os alunos para o caminho da cidadania para se tornarem Americanos. E com esse projeto que demorou cerca de três, quatro anos, com esse trabalho conseguimos 700 alunos ficaram americanos.

“Desenvolvia este trabalho porque se eles tivessem menores em casa, os menores que não tivessem nascidos nos Estados unidos, os menores também seriam americanos. E evitava-se que não fossem deportados. Envolvia uma educação de cidadania.”

Eu e uma colega minha do Pico, começámos a ver que os idosos portugueses, não procuravam os centros de convívios dos idosos porque não falavam Inglês. Os idosos portugueses, viviam e vivem muito isolados, porque emigraram para trabalhar e para poupar e não conheciam mais do que a sua casa, o supermercado e a Igreja. Não conviviam, ficaram viúvas não tinham convívios e nós “começámos a reparar” que as viúvas iam para a missa todos os dias, o sair delas era ir à missa.

O Regresso aos Estados Unidos


“Eu e outra colega iniciamos um convívio, eu e outra colega em paróquias. Uma vez por semana havia um convívio, e começou um convívio”em que havia um passeio mensal, já se conheciam, começaram a socializar mais, já tinham amigas, já havia aquele espaço social, e era todas as quarta-feiras, de inverno se estivesse a nevar o convívio era cancelado, mas elas não queriam deixar de ir insistindo sempre.

Já não estou lá, e os grupos que lá estão continuam como voluntárias. O seguro de Saúde de Massachusetts é muito diferente do que qualquer outro Estado ou de Portugal. Aqui se um idoso ficar sozinho, e for parar para um lar, para o Estado esse idoso fica-lhe por 12 000 dólares por mês. Para evitar esta situação o Estado fez um contrato com seguradoras privadas (seguros de saúde privados) para que possam cuidar dos idosos nas suas próprias casas, em vez de um idoso ir para um lar, ficarem nas suas casas.

“Trabalhei para uma dessas seguradoras, que se chamava “Senior Whole Health” e o meu trabalho era promover, fazer todo o marketing, para que as pessoas pudessem ter confiança, em se inscreverem nestes planos para terem ao mesmo tempo o máximo de benefícios de saúde e apoio ao domicílio.

Projeto Piloto

Era uma novidade, em 2005, que começou como um projeto piloto para o Estado, e hoje em dia já há seis ou sete a replicarem esta medida, e já mais de cem mil idosos, talvez mais, utentes estão inscritos no Estado de Massachusetts , na zona de Fall River, New Bedford, quando comecei a fazer este projeto que agora já são planos de saúde, ao inicio eram uns 15/20, agora já são uns 10 mil. Isto sempre como tendo presente a ajudar a comunidade, querer fazer uma diferença. Querer ser a protetora dos idosos, e dos idosos portugueses.

Mas quando estas empresas começaram a focar mais num objetivo financeiro eu decidi fazer uma pausa na minha carreira e repensar !o que é que é que eu quero fazer agora?”. “Eu sabia que queria fazer uma diferença, trabalhar com os idosos, trabalhar com os emigrantes. E em fevereiro deste ano houve uma vaga para “Community Engagement Coordinator” , para a Procuradora da Justiça do Estado de Massachusetts.

O que é a Procuradoria Geral da República?

Seria “o meu primeiro trabalho com o Estado e decidi concorrer, concorri, e aqui estou. Comecei em junho e faço um trabalho que estou a adorar, não estou só a educar os idosos, mas também, com jovens, a população em geral.” O que é o Gabinete da Procuradoria da Justiça, mas também como evitar cair em burlas, em telefonemas de vendas. Os idosos estão sozinhos muitas vezes e quando alguém lhes telefona dizem que sim a tudo, e depois são confrontados a pagar contas absurdas resultante dessas burlas. Esse tipo de educação com a população idosa não só americana mas toda a população idosa, com os jovens, que estão a começar a trabalhar em part-time, que horários é que eles podem ter, o que é o salário mínimo, como é que o talão de cheques deve ser descrito, que informação é que deve ter. Se por acaso trabalham no setor da restauração, o que é o ordenado.

No fundo consiste informar as pessoas sobre os seus direitos e não serem vítimas de burlas. Faço formação à comunidade em geral desde jovens e idosos, mas mais focada com os idosos.

Ver Também

Solidariedade e empreendedorismo: as marcas do percurso de Casimiro Gaspar na Flórida

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel...