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Segunda-feira - 24 Junho 2024

Um longo percurso profissional até chegar à OCHA (Nações Unidas)

Destaques

Vera Goldschmidt Ferreira, Nações Unidas

EXCLUSIVO

Vera Goldschmidt Ferreira é uma portuguesa, nascida em Luanda, há 55 anos. Desde criança que sempre teve “bichinhos carpinteiros”. Era uma criança muito ativa e com grande vontade ajudar as pessoas. Era uma espécie de apelo do futuro. Aos 14 anos foi fundadora da Juventude da Cruz Vermelha Portuguesa e ficou apaixonada por emergências desde então.

Estudou numa escola americana quando era criança no Brasil, o que faz com que tenha aprendido a ler e escrever inglês fluentemente desde os seus seis anos, “isso é fundamental para quem procura uma carreira internacional.”

Licenciou-se em Direito na Faculdade de Direito de Lisboa, queria ser jornalista, “sou duma geração da Margarida Marante, do Miguel Sousa Tavares, em que os jornalistas eram de direito.”

Terminou a licenciatura de Direito, e fez o estágio. Começou por exercer, em “versão muito diminuta”, não havia grandes escritórios de advogados naquela altura, não tinha familiares em Direito, e foi trabalhar no Serviço Nacional de Proteção Civil, como assessora jurídica do Presidente.

Os primeiros passos na ajuda humanitária

Quando tinha 14 anos. Ainda em jovem, tinha sido fundadora da Juventude da Cruz Vermelha Portuguesa.

O Presidente da Cruz Vermelha era seu vizinho, e era pai de amigos, “éramos um grupo de amigos mais ou menos da mesma idade. E o Coronel Duarte Cabarrão”, faz um chamado à juventude, e leva-os para Braga (“éramos mais ou menos uns 100”), durante um fim de semana, e nesse fim de semana “só nos falavam da Cruz Vermelha, da criação da Cruz Vermelha”, (…) os princípios humanitários, de todas essas temáticas. “Saímos todos apaixonados pela Cruz Vermelha, e fomos para as nossas respetivas áreas geográficas, formar o núcleo da Juventude da Cruz Vermelha.”

Como vivia em Lisboa, “calha-nos a sede, e eu fico três anos na Cruz Vermelha, e é aí que começa a minha paixão pelas emergências”. Entre os seus 27/28 anos começa a trabalhar na Proteção Civil, e a reconhecer caras. Eram antigos colegas da Cruz Vermelha. Eram mais velhos e tinham sido Comandantes de Unidades de Socorro da Cruz Vermelha. “Eu muito jovem e eles já adultos, nomeadamente o Presidente da Proteção Civil”. Que é um Senhor que depois em Portugal inteiro veio a conhecer: António Nunes, que foi o primeiro Inspetor-Geral da ASAE. “Alguém com quem eu aprendi muito”.
Começa na Proteção Civil, como assessora jurídica, mas rapidamente se apercebe que o que gostava era da parte operacional. Trabalhava como Assessora Jurídica durante o dia, e vinha para baixo para a sala de operações, “e tive muita sorte porque fui apadrinhada por várias pessoas da casa, que tinham grande experiência em emergências e que foram partilhando aquilo que eles conheciam, e isso foi essencial na minha progressão”.

Na Proteção Civil foi Assessora Jurídica, tendo ido a Macedónia durante a Guerra do Kosovo, em que Portugal foi buscar refugiados para o nosso país, participou na operação, passou para o departamento de Operações, e teve ocasião de trabalhar cerca de um ano e meio no departamento Operacional, “para mim foi fantástico”, trabalhar com uma pessoa que tinha imensa experiência o Inspetor Manuel Velloso, um homem que tem vinte e tal missões da Cruz Vermelha Internacional, e mais uma vez, com a generosidade de “me ir ensinando aquilo que conhecia, das Operações passei para as Relações Operacionais e nas Relações Internacionais tinha entre outras coisas a pasta da União Europeia.”

Isto também vai ser relevante mais tarde para o resto da sua carreira, e “eu ia a Bruxelas e representava Portugal no Comité Europeu de Proteção Civil, e no Conselho no grupo de trabalho de Proteção Civil”. Foi também uma altura muito interessante e gratificante.

Entretanto o Presidente do INEM, Cunha Ribeiro, desafia-a para passar para o INEM, para criar as equipas de intervenção em catástrofe, bem como liderar o projeto de uma sala de crise para o INEM, para acompanhamento de eventos em massa. Trabalhou durante 7 meses na planificação da resposta do INEM ao EURO 20024.

“Demos todo o apoio sanitário, ao campeonato, dentro e fora do estádio”. Foram sete meses do seu trabalho, da sua vida, e foram “sete meses muito gratificantes”, e esteve três anos no INEM, comprou um hospital de campanha, “sou uma advogada que compra um hospital de campanha”, diz com satisfação.
Criaram e formaram as equipas de intervenção e catástrofe, criando a sala de crise que funcionou 31 dias ininterruptos, durante o EURO 2004. Era uma equipa muito coesa, muito amiga, “ainda hoje, passado 20 anos continuamos amigos, grandes amigos..”

Patrícia Gaspar foi a porta-voz da Proteção Civil durante os incêndios florestais de 2017, e Comandante Nacional Adjunta, que hoje em dia é a Secretária de Estado da Proteção Civil, ligou-me a dizer que havia uma vaga para perita nacional destacada, e perguntou se eu não queria concorrer?
“Achei uma excelente pergunta e concorri. Falei com o Presidente do INEM, com o meu Chefe, e o Nelson Pereira, e candidatei-me.

Foi selecionada e em 2013, passa para Bruxelas, para a Unidade de Proteção Civil da Comissão Europeia, enquanto a perita nacional destacada. Os Estados emprestam os seus nacionais, os seus peritos à Comissão Europeia. E aí começaram seis anos fantásticos “da minha carreira”, em que teve oportunidade de fazer 12 missões de resposta a emergências, incluindo fogos florestais em Portugal. Tinha a pasta dos fogos florestais, criou a estratégia europeia de cooperação de fogos florestais, depois liderou o projeto em que tinham dois aviões, pagos pelo Parlamento Europeu, num projeto piloto para tentar perceber se a Comissão teria capacidade de ter os seus próprios meios. Também trabalhou, com os sistemas de aviso e alerta para tsunamis, na altura uma prioridade da Presidência Portuguesa. E mais tarde trabalhou na cooperação com as Nações Unidas.

Esteve seis anos muito gratificantes, sempre em contacto com pessoas, era uma perita nacional destacada portuguesa, “muitas vezes estava eu deste lado do telefone e a Patrícia do outro lado a fazer a ativação dos aviões, que iriam ajudar na altura mais critica dos incêndios. Foram seis anos muito gratificantes.”

Quando acabaram os seis anos, que era o máximo que se podia estar, passa para a Organização Internacional das Migrações (OIM). Para fazer um guia de planificação de evacuação em massa em caso de desastres de origem natural.

Muda-se para Genebra. Esteve um ano e meio entre Genebra e Bruxelas, e foi para o escritório da OIM em Bruxelas, em que foi o ponto focal das Operações Humanitárias da OIM, junto da União Europeia. A União Europeia é um dos maiores doadores de ajuda humanitária a nível mundial, e é importante a conexão permanente com um dos maiores doadores. E não é apenas um doador, mas é alguém que faz política “Policy”, em termos humanitários.

Ao voltar a Bruxelas,acabou por realizar o sonho que tinha em 2006, quando estava no INEM, onde nos tornamos parte das equipas de resposta a catástrofe das Nações Unidas – as UNDAC.

“Tinha feito a minha formação em 2006, e “o chefe perguntou-me se me desafiasse para que fosse para Genebra eu aceitava. Disse que sim. E aí nasceu a vontade de trabalhar na OCHA.”
Dez anos mais tarde surge uma vaga para número dois do escritório de Bruxelas, o escritório de ligação da União Europeia e à NATO, e concorreu. Fez as provas. (Nas Nações Unidas faz-se exame escrito e oral). Passou as duas provas e foi selecionada.

Em janeiro de 2016, dez anos depois, de ter entrado para as equipas de catástrofe das Nações Unidas (UNDAC) realizo “o meu sonho de chegar às Nações Unidas e chegar à OCHA.”

Está na OCHA há oito anos, tem tido distintas funções: foi o número dois escritório de Bruxelas, até que fechou em Março de 2018.

Voltou a Genebra, onde chefiou de uma unidade de resposta a emergências ambientais, que junta a OCHA com o Programa ambiental das Nações Unidas, “United Nations Environment Programme”.

Esteve três anos em Genebra na secção de com relação com doadores, “também foi enriquecedora, pois deu-me uma visão que eu desconhecia do financiamento humanitário. Temos muitas necessidades humanitárias, e o próprio financiamento da OCHA, em que temos um orçamento que 95% é feito com contribuições voluntárias. Que é preciso que cheguem.” E finalmente há quase dois anos está na Guatemala, agora numa parte mais operacional trabalhando na área dos planos de resposta humanitária.

A OCHA está presente nas guerras da Ucrânia e no Médio Oriente

O Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), significa o que o próprio nome indica, coordenar, “nós não somos provedores de ajuda humanitária, embora tenhamos a gestão de fundos humanitários”, quer o Fundo Global, o CERF quer fundos de pais, que são cerca de 20, o nosso mandato dado pela Assembleia-Geral das Nações Unidas, é para fazer a coordenação da ajuda humanitária. Ou seja, garantir que todos os intervenientes, que trabalham na resposta de uma crise, seja ela num desastre de origem natural, seja com base em conflito, que geram grandes operações humanitárias, trabalham de forma coordenada. “Nós estamos onde há conflitos e desastres de larga escala”.

Onde há grandes desastres existem grandes necessidades humanitárias, “trabalhamos de forma coordenada, ou seja, que os distintos atores, se sentam à mesma mesa, e fazemos uma análise conjunta da situação, para garantir que temos a mesma visão da situação, sempre com base nos nossos princípios humanitários, chegamos a acordo sobre o que é que está acontecer. O que é que está a gerar ajudas humanitárias, ande estão localizadas, quais são as populações mais afetadas e como é que vamos estruturar a nossa resposta, e quais as populações prioritárias.”

A OCHA está, na Ucrânia, em Gaza, e em muitos outros países. “Nós não somos um programa grande, não estamos ao nível do Programa Alimentar Mundial, ou do Alto Comissariado para os Refugiados, nem da OIM. Somos muito mais pequenos porque o nosso papel é de coordenação. Ao mesmo tempo damos voz a quem não a tem. O Chefe da OCHA tem dois chapéus, o chapéu do Chefe da OCHA , e tem o chapéu do coordenador do sistema humanitário. É ele que faz os briefings ao Conselho de Segurança, sobre os aspetos humanitários, e sobre as consequências humanitárias, de um conflito.”

Também trabalham muito na área do financiamento humanitário, é a OCHA que prepara as análises de necessidades humanitárias dos países, “aquilo que nós chamamos o panorama de necessidades humanitárias. Os subsequentes planos de resposta humanitária, é o que eu estou cá a fazer, trabalho nessa área com esses países, Guatemala, Honduras, e com El Salvavor. Sou Oficial de Assuntos Humanitários na OCHA, Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Ajuda Humanitária.

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