MJ Maciel Jorge, é mais um daqueles casos paradigmáticos da emigração portuguesa pelo mundo. Limitada pelas barreiras do Atlântico, sempre teve, desde criança um fascínio pelo Canadá. Ainda lembra do sabor dos bombons que recebia das suas tias que estavam emigradas nas Américas. Casou por fascínio das cores que vinham do lado de lá, com um Canadiano, que foi a plataforma de lançamento para o continente americano. É natural dos Açores, São Miguel, em Ponta Delgada, o seu pai é do Faial e a mãe é da ilha Terceira.
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O pai trabalhou em Ponta Delgada nos Correios, toda a sua vida. Quando MJ Maciel Jorge era muito pequena, regressaram à ilha do Faial, mas, infelizmente, para ela, não tinha o sotaque de São Miguel, que tanto aprecia.
Foi para o Canadá aos 18 anos. Existia uma especial atração pela vida dos emigrantes e o que representavam. Naquela época, em 1989, não havia internet, não havia “nada”!. As suas duas tias, emigradas na Califórnia e vários parentes na outra costa. Quando regressavam de férias à ilha as primas eram uma referência de modernidade.
“Eu queria ter a experiência da cidade grande, de fugir às limitações da ilha,” revela a Professora Maria Maciel. Sempre teve uma visão cor-de-rosa do que era a emigração e os seus sonhos rodopiavam nessa magia da emigração!”
Como era jovem não percebia que a “magia” que transportavam era carregada com muito sofrimento. Era uma sonhadora e querer sair da ilha era o seu objetivo. Mas a realidade por vezes rasga sonhos, ou amarrota-os, como aconteceu com MJ Maciel Jorge.
“Agora sei, porque também passei por isso, ser emigrante é sofrer muito, é deixar, de certa forma a nossa cultura e trabalhar e muito. Para quem não tem formação, é ainda mais duro!
Por vezes há uma certa falta de compreensão da vida de um emigrante, o que se revela quando vai de férias para a terra natal: trazem na voz o sotaque do sítio onde se encontram a viver, o que é normal.
De certa maneira, às vezes esquece-se da palavra em português e lá vai uma palavra em inglês, ou francês o que é o resultado de uma vida passada por vezes a milhares de quilómetros de distância da terra de Camões.
A emigração
Apesar de custar muito emigrar, os açorianos, de uma maneira geral não regressam à ilha, enquanto os do continente regressam mais. “Aquela pobreza insular, especialmente para as mulheres é um travão para o desenvolvimento. Aqui, vão às aulas de ioga e ginástica e saem com as suas amigas e não querem regressar, de um mundo muito rural e não têm muitas oportunidades de socializar.
“Fui para o Canadá à procura de me encontrar ou de me realizar. Compreendeu que não havia forma de sair da ilha para frequentar a universidade. Na altura a opção foi casar-me com um rapaz canadiano, filho de portugueses, que não se adaptou à ilha, e lá fomos”. No início da estadia em terras canadianas teve de trabalhar e muito. Depois veio o divórcio e um filho ainda bebé, por conseguinte decidiu pôr todos os tostões que tinha e investir na formação académica.
Foi mãe solteira para a Universidade Western Ontario, que agora se chama Western University, na cidade de London, no sul do Ontário, que fica a três, quatro horas de Toronto. Licenciou-se em francês e espanhol, mas não ingressou na universidade com esse objetivo. Não sabia muito bem o queria estudar, apenas sabia que queria aprender cada vez mais.
O primeiro ano foi de auto-descobrimento: O professor que dava aulas de literatura espanhola e portuguesa do XV e XVI, inspirou a jovem estudante a dirigir o histórico olhar na direção do novo mundo dos descobrimentos do reino espanhol e português.
“Como a ficção tinha um elo muito relevante em captar uma dimensão humana que a história não conseguia, comecei a ter muito interesse na minha investigação profissional, que é examinar a ligação entre a expressão criativa e os movimentos históricos.” Revela a Professora.
Decidiu fazer o mestrado com uma tese sobre Gil Vicente. Depois veio o doutoramento, “às vezes digo aos alunos que eu sou uma académica acidental.” Pois nunca sabia ao certo o que queria estudar, mas o resultado foi extremamente positivo.
Fez um doutoramento em Literatura Ibérica: um estudo comparativo sobre a representação da mulher e da beleza na Literatura Ibérica do Renascimento. Antes de acabar o doutoramento, foi a uma entrevista de trabalho na York University. E desde2005 exerce a sua profissão: primeiro como Assistant Professor, depois como Associada e nos últimos quase três anos, é Associate Dean, Vice-Reitora.
Uma mensagem a todas as pessoas emigrantes e aquelas que pretendam emigrar, mas em espécie de conto, em prosa.
“Nos últimos anos tenho tentado honrar os que emigraram. Fico um pouco emocionada quando penso, (sente-se na voz um embargo) quando falo nestes temas, porque eu já sofri e precisei, como diz uma amiga minha, comer o pão que o diabo amassou. Eu sei o que é emigrar: é um processo doloroso, difícil. Estamos desligados do nosso país de nascimento e, de certa forma de início, também desligados do país de acolhimento.
Tenho tido sorte porque tenho conseguido ligar-me a ambos. Por vezes não é fácil, por vezes a integração não é fácil é preciso força de vontade para a pessoa conseguir integrar no espaço migratório. Principalmente na área da educação e no que diz respeito à formação académica. Integração e formação, elementos essenciais para o sucesso.
De certa forma, vejo-me responsável de honrar todos os emigrantes que vieram, que já faleceram e que passaram as passas do Algarve e que nunca ninguém os compreendeu.
Os últimos anos, tenho-me dedicado também a escrever as histórias desses emigrantes, o que eles passaram para poderem dar uma vida melhor aos seus filhos e aos seus netos.
O sucesso deles não foi só o sucesso. Às vezes fala-se muito que as pessoas vieram para aqui, trabalharam muito e que afinal, tudo tinha a ver com o factor económico?!
Eu acho que não. As nossas emigrantes que participaram aqui em greves, (houve uma greve aqui em Toronto, nos anos 1980) especialmente aquelas que vieram dos Açores, pouco ou nenhuma formação apresentavam, participar e levantaram a voz, foi um marco muito importante.
Estou a escrever um romance em que inclui uma personagem, que é uma dessas mulheres. Mas, de facto, o que as pessoas conseguiram fazer aqui é admirável. Porque não sabiam a língua e por vezes viviam entre várias culturas. No presente caso entre Português, Francês e Inglês, não é fácil.
Não tinham formação em Portugal. Não sabiam ler ou escrever em português, mas chegaram e venceram ao criar vidas e sucessos empresariais. Conseguiram criar bem-estar para os seus filhos e para os seus netos e hoje têm filhos e netos que se têm distinguido em várias carreiras.
Penso que nós não temos dado o valor que devemos aos nossos pioneiros. Em Toronto existe a Galeria dos pioneiros, que conhece muita dedicação da nossa comunidade e esperamos que seja um caminho para o futuro.
A mensagem que desejo deixar, é para quem nunca emigrou, tentar ter alguma compreensão. Emigrar não é fácil e quando regressam a Portugal, passados anos de distanciamento surgem entrelaçamentos entre a língua de Camões e as dos países de acolhimento: por vezes nas tormentas, surjam sem querer: um À bon! ou “Arrêt! e não seja motivo para lhe passarem um “ticket” na hora de estacionar em Português!




