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4 de janeiro de 2026

O Ípsilon e o que ainda sabemos reparar

Nos primeiros dias de 2026, comecei por folhear o Ípsilon, suplemento cultural do Público. Não por acaso. Há algo de certo em começar o ano pela cultura, não como ornamento, mas como espaço onde ainda se ensaia pensamento antes da reação imediata que nos traz as notícias do mundo em tempo “real”.

Numa das entrevistas, surgia Christian Petzold, um dos nomes centrais do cinema alemão contemporâneo e figura maior da chamada Escola de Berlim. Um cinema atento ao quotidiano, às vidas comuns, às relações interrompidas, longe do espetáculo e da grandiloquência. Petzold falava de um mundo que está a desaprender a reparar. Dizia-o sem dramatismo, quase como quem constata um facto.

“Já não sabemos consertar coisas, relações, gestos. Substituímos, descartamos, avançamos.”

Noutra passagem da entrevista, dizia que o cinema fala de pessoas que “perderam os sentidos, esqueceram-se de cheirar, de provar, de ver e de ouvir, e têm de aprender isso de novo”. Acrescentava ainda que lhe interessa mostrar personagens em processo, não em estado fixo, porque “mostrar gente que tenta reparar o mundo” é, para si, uma forma de fazer política. Não a política do discurso, mas a da atenção e da ação. Ainda não vi o novo filme de Petzold. Quero ir vê-lo. Talvez porque essa ideia de reaprender os sentidos me pareça hoje mais urgente do que muitas respostas rápidas. Reparar, neste primeiro sentido, como observar com atenção, sem anestesia. Reparar como consertar o que está quebrado no mundo e em nós.

Na mesma revista, outra entrevista puxava o fio noutra direção. A escrita de Édouard Louis, um dos autores franceses mais marcantes da sua geração, conhecido por escrever a partir da própria experiência de origem operária, violência doméstica, exclusão social e homofobia. A sua literatura não procura conforto nem reconciliações fáceis. Procura dar voz ao que foi silenciado.

Louis escreve sobre a violência que atravessa famílias, classes e instituições. Numa das passagens mais fortes da entrevista, afirma que “a escrita é um instrumento de perdão”. E esclarece de imediato que “perdoar não significa varrer para o lado”. Não é apagar. É enfrentar o que aconteceu sem reduzir o outro à sua pior ação. É recusar a desumanização total, mesmo quando ela parece tentadora. Precisamos tanto de integrar esta mensagem no mundo se queremos que haja reparação de tanto sofrimento a que temos assistido, por todo o lado. Reparar, no sentido mais exigente de todos, será o de perdoar.

Da calma da leitura passei para as imagens brutais das notícias. E, dentro delas, reparei no que observei com mais atenção, para lá dos factos.

Na noite de passagem de ano, um incêndio num bar na Suíça transformou uma celebração num pesadelo. O tecto começou a arder, o fogo espalhou-se com rapidez e o perigo tornou-se evidente em segundos. As imagens que circularam mostram jovens a tentar compreender o que estava a acontecer. Alguns ficam imóveis. Outros filmam e dançam. Um deles tenta apagar as chamas com a própria camisa.Aqueles jovens a filmar e a dançar foram o que mais me marcou. O meu choque ao vê-los assim, incapazes de ler a gravidade do momento. Houve vítimas mortais. Uma tragédia absoluta, que marca famílias, amigos e uma geração inteira que entrou no novo ano em luto. As lágrimas e a dor são tremendas, mas o choque daquela reação foi o que mais me perturbou, por ser tão alarmante. Será aqui que temos de reparar aquilo que fomos permitindo a uma geração que sente que tem de gravar tudo para ver se “apanha o momento viral”, em vez de agir em seu próprio benefício e no dos outros.

Na mesma noite, também na Holanda, o fogo voltou a impor-se como sinal. Ardeu uma igreja e as imagens da cúpula que acabou por cair correram mundo. Mas não foi um episódio isolado. O que não correu mundo foram as imagens da devastação em várias cidades. Carros e edifícios incendiados, confrontos, feridos e uma sobrecarga tão intensa dos serviços de emergência que, ainda antes de uma hora do novo ano, muitos receberam nos telemóveis um alerta nacional a pedir contenção, porque o sistema já estava no limite. Foi a noite em que todos sabiam que seria a última de fogos legais, marcando o fim de uma tradição antiga de celebrações com fogo de artifício, demasiado tempo tolerada apesar dos riscos, agora oficialmente reconhecida como insustentável. Na nossa rua nunca há desacatos, tudo corre bem e é, sem dúvida, belíssimo. Mas não podemos negar que tinham de ser tomadas medidas para evitar que o país se transforme em caos em vez de celebração.

Estas notícias não são equivalentes, mas dialogam de forma inquietante. Num caso, vemos jovens apanhados num momento em que os sentidos falham, em que o corpo não reage a tempo porque nunca foi treinado para interromper o espetáculo e agir perante o real. No outro, vemos símbolos, infraestruturas e sistemas de resposta a ceder sob pressão. Em ambos, a sensação é a mesma. Um mundo cansado, saturado de estímulos, pouco preparado para reparar no que está à frente dos olhos e onde se perdeu o sentido de civismo em si mesmo.

É aqui que a reflexão de Petzold ganha peso. Quando fala de pessoas que perderam os sentidos e precisam de reaprender a ver, a ouvir, a estar, não aponta culpados individuais. Aponta um tempo que nos habituou a registar antes de sentir, a filmar antes de compreender, a reagir tarde demais. Olhar para estas imagens exige também compaixão. Não apenas pelas vítimas, mas por uma geração inteira que herdou um mundo onde a presença foi substituída pela mediação constante.

Reparar, nos três sentidos da palavra, exige presença. Exige que não desviemos o olhar. Que não desistamos de tentar consertar o que ainda pode ser cuidado. E exige também a coragem de perdoar sem apagar a verdade.Talvez este seja um trabalho digno para 2026. Não como promessa grandiosa, mas como desejo praticável. Reaprender a reparar.

E termino voltando ao nome da revista. Ípsilon. A letra da bifurcação. O ponto em que já não é possível seguir em frente sem escolher. Talvez seja isso que este tempo nos pede. Não respostas definitivas, mas escolhas conscientes, todos os dias. Focar no que ainda sabemos reparar e no que nos falta aprender. Da minha parte, vou continuar a trazer-vos, para vosso reparo, esta coluna semanal. Termino com votos de humanidade e de reparação para 2026.

E como sempre, que este texto vos inspire ou vos provoque. Não procuro concordância, mas romper as correntes da apatia.

Declaração de responsabilidade: Todas as opiniões e reflexões expressas nos textos, entrevistas ou publicações da autora são estritamente pessoais. Não devem ser entendidas como representando posições oficiais de qualquer organização, empresa ou instituição com as quais mantenha ligação profissional ou institucional. Embora desempenhe diversos cargos de liderança, consultoria e direção, as suas reflexões pessoais permanecem independentes e não devem ser atribuídas a essas entidades.

Por Marisa Monteiro Borsboom

Marisa Borsboom / Correspondente no BENELUX
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